Sábado, 1 de Novembro de 2008

VAI UM SHOT DINAMARQUÊS?

1. Não, o capitalismo não morreu. Ainda. Mas está podre e já cheira mal no nosso quintal, enquanto antes só o sentíamos feder no quintal do vizinho. Responsáveis? Como sempre não há ou moram em parte incerta. Mas como somos seres racionais, providos de razoável inteligência, sabemos algumas das causas que levaram este cadáver a arrastar-se pelas ruas do nosso quotidiano durante os últimos anos. E, se formos um pouco mais astutos, saberemos dar nomes e moradas que, de incertos, passam a rostos. A ganância tem nome. A ignorância também. Dos Soros e Greenspans de grande escala, às mais respeitáveis instituições estatais ou privadas que nos prometiam controlo, vigilância e rigor. Na realidade, durante muito tempo, a ausência total desse controlo que agências, entidades e comissões expressamente constituídas para o efeito não exerceram, foi o que lançou bancos na falência, países na ruptura e milhões de famílias na miséria. E não é preciso ir à Etiópia nem a Angola. Um passeio despreocupado pelo interior dos Estados Unidos é suficiente para nos mostrar o quão desprotegido está o cidadão no que diz respeito à salvaguarda dos seus mais elementares direitos. Com mais de 41 milhões de pobres, a visão de uma nação que sucumbe perante furacões, meteorológicos ou financeiros, é assustadora. As poupanças de uma vida esboroam-se ao mais pequeno toque de asas de uma borboleta algures no Japão. Este é também o rosto de uma globalização que faz enriquecer alguns à custa dos sonhos de tantos. Longe do esplendor das séries de Hollywood, a América agoniza. E com ela o mundo. A expressão “crise no sub-prime” entra no léxico corrente. Isto é, créditos a mais, dinheiros malparados, produtos financeiros intoxicados e vendidos como se ouro fossem, são, à primeira vista, apenas o rastilho de uma crise que ainda vai no adro. No terreno, pais e mães de família, sobretudo das zonas suburbanas e pertencentes a minorias com escassos recursos financeiros e de formação, são obrigados a largar as casas porque incapazes de cumprir as prestações que julgavam possíveis. Não há mais empregos para a vida que assegure o futuro. Por vezes, não há mais futuro mesmo. Quando muito, multi-emprego desqualificado e a termo para suprir às necessidades do dia-a-dia. É o caos. E os bancos, comissões reguladoras e governo sabem-no antes que nós nos possamos aperceber que o furacão afinal também vem a caminho das nossas casas e haveres. Pelo meio, negociatas obscuras de especuladores pouco preocupados com a liberdade de outrém. Números com mais zeros que o PIB português alguma vez possa gerar, são diariamente jogados numa roleta infernal sem que alguém actue. O rei vai nú e ninguém é capaz de o dizer até ao instante em que a bolha rebenta. Então, como que numa reviravolta mágica e absurda, a palavra ‘nacionalização’ volta a cobrir as manchetes dos jornais. E já não são os mesmos que a defendem. Agora, e num repente, todos se viram para o Estado como o deus todo poderoso que deve, finalmente, operar o milagre da recuperação. Com a maior das naturalidades, liberais fundamentalistas advogam a inequívoca intervenção deste em frentes sagradas para o sistema: a banca, os seguros, os créditos. O Estado, através do dinheiro de todos irá, uma vez mais pagar a cegueira arrogante de alguns. Pelo meio, uma Administração falhada de um homem falhado. George Bush ficará na História pela pior das razões: lançou o país numa guerra com múltiplas frentes que nunca poderá ganhar desta forma, ignora os sinais de perigo na derrapagem da economia durante, pelo menos, os últimos cinco anos, e termina o seu mandato sem ter conseguido mais do que tornar mais fechada e provinciana uma América em estertor de império falido. E os chineses, para onde agora tende o eixo, impermeáveis e impenetráveis, esfregam as mãos de império crescente. E contente.

 

 

2. A Dinamarca é o país mais feliz do mundo. Esta frase não é minha, que não me atrevo a estas generalidades. Foi o título que, há uns meses, todos os jornais publicaram, fruto de um inquérito feito à escala global por um departamento de sociologia de uma prestigiada universidade Norte-Americana. Para quem lá vai com assiduidade, não é um facto surpreendente. Com níveis de corrupção próximos do zero e de instrução na casa dos 98, não é difícil adivinhar porque sorriem os dinamarqueses. De resto, toda a Escandinávia sempre apostou na educação e formação como pilar base para uma sociedade plena. Mas na Dinamarca, mais do que nos países vizinhos, são visíveis os resultados de um imenso esforço comunal semeado após a I Guerra Mundial. Sem listas de espera nos hospitais, por exemplo, e sendo a saúde um problema há muito resolvido, o cidadão mais desprotegido, porque também os há, tem assegurados todos os cuidados, muito para além dos básicos, permitindo-lhe uma qualidade de vida dificilmente imaginada por nós portugueses que penamos meses por uma consulta no serviço público para, no dia marcado, sermos surpreendidos por uma greve no sector. Provavelmente justa. Já aconteceu a todos. Talvez ajude aos dinamarqueses o facto de o Estado remunerar bem os médicos que, com tanto esforço, ajudou a formar. Daí que, naquele país, não seja incentivada a medicina privada. Afinal que bem mais universal há para além da saúde? Talvez a justiça. E essa, nem o mais neo-liberal dos sistemas ousa privatizar. A não ser por via indirecta das desigualdades sociais que tanto fomentam a dita corrupção, lá inexistente. Ajuda também o facto de os dinamarqueses serem o povo europeu que mais impostos paga, na casa dos 50 para os mais altos escalões, e de exercerem a cidadania activa que lhes permite controlar a todo o momento de que forma são aplicados os dinheiros públicos. Não há autoestradas a mais. Talvez hospitais, escolas e creches sim. E todos gratuitos. Aeroportos dignos desse nome, só o de Copenhaga pela quantidade de voos directos mercê da sua excelente centralidade geográfica na Europa. O de AArhus, segunda maior cidade, cumpre à míngua, mas manifestamente não é ainda uma prioridade onde se vá esbanjar dinheiro. O que tem isto a ver com Portugal? Tudo. Tudo o que não temos: liderança, noção da causa e coisa pública, elites empenhadas e instruídas e uma população invulgarmente esclarecida, activa e atenta.

 

 

3. E a propósito de corrupção, que dizer da profética frase de Fátima Felgueiras nas alegações finais do seu julgamento a decorrer na cidade de Felgueiras, precisamente por abuso das suas competências enquanto autarca? “Eu sou a verdade”, Fátima Dixit. E o povo aplaude e provavelmente irá reelegê-la se a lei portuguesa o permitir. O problema não são sequer os actos que alegadamente terá cometido. A justiça está lá para isso. É mais esta soberba com que sucessivos responsáveis políticos encaram precisamente os tribunais, juízes e procuradores. ‘Eles’ são a verdade, os intocáveis, as vítimas de uma cabala que foi urdida para os tramar. E provavelmente tem razão: num país que depauperou inexoravelmente o seu melhor, do património à paisagem, dos dinheiros europeus aos próprios, e onde negócios travessos para usufruto próprio ou corporativo são a regra, ‘eles’ são apenas aqueles que, na tentativa de fazer o bem pelas populações que supostamente deveriam proteger, são apanhados pela incompreensão da justiça e do Estado que não nutre muita simpatia por tamanha filantropia. Valentins e Felgueiras não faltam por aí. Mas populações mal-informadas, desinteressadas e alheias infelizmente também não. E prontas a reelegê-los. Vai um shot de Schnaps dinamarquês nessa indiferença?

 

Porto, 1 de Novembro de 2008

 

Pedro Abrunhosa

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 12:53
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